Ia eu a caminho do carro, quando reparei num senhor já de uma certa idade, que levava uma caixa de vinho branco debaixo do braço, enquanto tentava com bastante dificuldade, subir uns degraus.

Olhou para mim e bastante aflito, perguntou-me se o podia ajudar.

Peguei na caixa de vinho, dei-lhe o braço e ajudei-o a subir as escadas.

Enquanto caminhávamos, muito, muito devagarinho, respondeu-me, quando lhe perguntei se não tinha quem o ajudasse, que vivia sozinho com a esposa, mas que estava de cama, muito doente. Disse-me – Sabe, estamos casados há 80 anos. – É impossível não sorrir quando nos contam algo assim.

Ajudei-o a subir as escadas do prédio que nos levavam ao r/c onde vivia. Tentou colocar a chave na fechadura, sem sucesso. Peguei nas suas chaves, abri a porta, entreguei-lhe o vinho e segurando-me a mão, agradeceu-me uma e outra vez pela ajuda. Timidamente, disse-lhe que tinha sido um prazer.

Voltei para o meu caminho, de sorriso no rosto, feliz por ter estado ali, por ter sido a força extra que aquele senhor de 98 anos, precisou naquele momento. Nunca soube o seu nome, mas nunca mais o esqueci.

***

Estava no supermercado, quando reparei numa senhora que empurrava, com alguma dificuldade, o cesto de compras. Numa mão segurava uma canadiana, com a outra empurrava o cesto e devagarinho, dirigia-se para a caixa.

Dizem-nos naquele momento que aquela caixa iria fechar. Dirijo-me à outra, no lado oposto do supermercado, segura de que a senhora, ainda assim, seria ali atendida. Quando chega a minha vez, volto a reparar na senhora, que não não tendo sido atendida na outra caixa, empurra novamente o cesto, com dificuldade.

Perguntei-lhe se a podia ajudar a colocar as compras no tapete. Agradeceu-me.

Foi dizendo à funcionária, que passava apressada as compras pelo leitor, que não sabia como é que iria guardar as compras, já que tinha o seu carrinho perto da outra caixa. A funcionária não respondeu. Irritada com a funcionária, acabei por perguntar onde estava. Fui buscar o carrinho e voltei. Enquanto a senhora pagava, fui guardando as suas compras. Paguei as minhas e voltámos para o outro lado do supermercado, enquanto me agradecia repetidamente. Entreguei-lhe o carrinho, cheio e muito pesado. Disse-me para não me preocupar, porque a viriam ajudar. Agradeceu-me. Respondi-lhe que não me tinha custado nada. Abraçou-me, um abraço caloroso, e desejou-me tudo o que de bom se pode desejar.

***

Estava no mesmo supermercado, quando uma senhora muito baixinha e franzina, me perguntou o preço dos ovos (fez-me lembrar a minha avó, apesar da grande diferença de altura). Percebi que não conseguia ver o preço. Respondi.

Disse-me que estavam muito caros. Falou-me de Salazar e dos cofres cheios que ele deixou. Contou-me que trabalhou a vida toda e que nunca passou fome e que agora, passava.

Disse-lhe para levar os ovos, que seriam uma oferta minha. Dirigimo-nos para a caixa, ambas um pouco sem jeito, paguei os ovos e o resto das compras que levava. Envergonhada, agradeceu-me.

Uns dias depois, soube que voltou logo de seguida, à minha procura. Pediu para que eu deixasse a minha morada ou o meu contacto, para que me pudesse agradecer, e que só o poderia fazer com couves da sua horta.

Há pequenos gestos que não nos custam mesmo nada, mas que podem fazer uma grande diferença na vida dos outros.​​

A Vanessa também escreve aqui. Num sitio só seu.

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